Da commodity ao microlote.A história de como o café mudou tudo e continua mudando.

Pensa comigo. Existe uma boa chance de que o primeiro café que você tomou na vida não tinha nada a ver com o café que você está descobrindo agora. Era amargo, forte, adoçado com bastante açúcar e funcionava. Fazia o serviço.

O café que você está descobrindo agora não caiu do céu. Ele é o resultado de décadas de rupturas, revoluções silenciosas e pessoas que decidiram que a bebida mais consumida do mundo merecia ser levada a sério.

Existe uma forma simples de entender como o café evoluiu ao longo do último século: imagina uma linha do tempo dividida em ondas. Cada uma delas não substituiu a anterior de uma hora para outra, elas se sobrepõem, coexistem, brigam entre si. Mas cada onda carregou uma mudança de mentalidade que transformou a maneira como o mundo enxerga o café.

Se você está começando a explorar esse universo agora, entender essas ondas vai te ajudar a situar onde estamos e por que o café especial que você está tomando hoje é tão diferente daquele pó instantâneo da sua infância.

Primeira Onda

O café vira produto de prateleira Final do século XIX até meados dos anos 1960

Tudo começa com uma pergunta simples: como fazer o café chegar na casa de todo mundo? Não importava muito qual café, importava que chegasse, rápido, barato e em grande quantidade.

Foi nessa lógica que nasceu a primeira onda. O café sai das tostadoras artesanais e entra nas grandes fábricas. Surge o café solúvel, o café enlatado, o café embalado a vácuo. O objetivo era um só: escala. A Segunda Guerra Mundial teve um papel curioso nessa história, o exército americano levava café solúvel para os soldados como parte da ração. Quando a guerra acabou, uma geração inteira voltou para casa com o hábito instalado.

Marcas como Folgers e Maxwell House dominavam os supermercados americanos. A Nescafé, da Nestlé, fazia o mesmo no resto do mundo. O Brasil, o maior produtor de café do planeta, exportava volumes imensos de grãos sem se preocupar muito com o que ficava para consumo interno. A lógica era cruel: o café bom ia para fora, o resto ficava.

Nesse período, ninguém perguntava de onde vinha o grão. Ninguém sabia o nome do produtor. Ninguém questionava o processo de torra. O café era funcional: acordava, deixava mais ligado e era isso. Qualidade era uma palavra que simplesmente não entrava nessa equação.

Segunda Onda

O café vira experiência e negócio.
Anos 1960 até o final dos anos 1990

A segunda onda não começa com uma revolução de qualidade. Começa com uma revolução de espaço.

Nos anos 1960 e 1970, alguns empreendedores começaram a perceber que o café poderia ser mais do que uma bebida. Poderia ser um lugar. O conceito de “terceiro lugar” um espaço entre a casa e o trabalho, onde as pessoas se sentam, conversam, ficam, começa a tomar forma nas primeiras cafeterias modernas. E ninguém usou esse conceito com mais força do que a Starbucks.

A Starbucks foi fundada em Seattle em 1971, mas é nos anos 1980 que ela muda de patamar — quando Howard Schultz visita a Itália, se encanta com as cafeterias de Milão e decide replicar aquela atmosfera nos Estados Unidos. Cappuccino, latte, caffè macchiato. Bebidas com nomes italianos, tamanhos com nomes inventados, ambiente aconchegente. O café virou ritual, virou identidade, virou status. Se você não leu a biografia de Howard Schultz, vale muito a pena. É uma aula sobre experiência de consumo e UX.

Mas a segunda onda não foi só a Starbucks. Em 1986, a Nestlé lança a Nespresso, um sistema de cápsulas individuais que prometia qualidade de cafeteria sem sair de casa. A proposta era sofisticada: máquinas elegantes, cápsulas numeradas como vinhos, uma comunicação de luxo construída sobre a imagem de George Clooney. O slogan “What Else?” virou ícone. A Nespresso não era café gourmet no sentido técnico, mas foi ela que ensinou milhões de pessoas que era possível pagar mais por uma xícara e que isso fazia sentido.

O papel da Nespresso foi mais simbólico do que sensorial. Ela democratizou a ideia de que o café em casa podia ser uma escolha consciente, não apenas um hábito automático. Criou um consumidor que começou a questionar o que bebia que explorava cafés de países diferentes como Índia, Indonésia, Colômbia, Peru, mesmo que a resposta ainda fosse uma cápsula de alumínio.

No Brasil, a segunda onda chegou com um pouco de atraso, mas chegou forte. No começo dos anos 2000, nomes como Suplicy Cafés, de Marco Suplicy, e Santo Grão, de Marco Kerkmeester, em São Paulo, e a rede Fran’s Café começaram a criar uma cultura de cafeteria nas cidades grandes, além d aícônica Octávio café na Faria Lima em São Paulo. Eram espaços que valorizavam o preparo, treinavam baristas, introduziram a arte do latte no cotidiano brasileiro. Ainda não era café especial no sentido técnico e como conhecemos hoje mas era um passo decisivo para o que viria depois.

É também da Austrália que vem uma contribuição importante que muita gente ignora. Melbourne desenvolveu uma cultura de café independente, radicada no espresso de qualidade, desde os anos 1950, influenciada pelos imigrantes italianos que trouxeram a máquina de espresso para o país. O flat white, talvez o maior legado australiano para o café global, nasce nesse contexto. E quando a terceira onda chegou, a Austrália já estava um passo à frente: o consumidor australiano não precisava ser educado sobre qualidade, ele já exigia.

“A segunda onda ensinou o mundo que café valia mais do que o preço mais barato. A terceira foi além: ensinou que o sabor começa na fazenda, não na cafeteira.”

Terceira Onda

O café vira artesanato — e o grão ganha nomeAnos 2000 em diante

A expressão “terceira onda” foi usada pela primeira vez por Trish Skeie, uma torrefadora norueguesa, em 2002. Ela não estava inventando um movimento, estava dando nome a algo que já estava acontecendo. Um grupo de importadores, torradores e baristas, principalmente na Costa Oeste americana, estava tratando o café de uma maneira radicalmente diferente: com a mesma seriedade e vocabulário que se usa para o vinho.

Origem. Variedade botânica. Altitude da fazenda. Processo de secagem — natural, lavado, honey. Perfil de torra. Receita de extração. Tudo isso passou a importar e a aparecer no rótulo. Surgiu a pontuação SCA (Specialty Coffee Association): cafés que atingem 80 pontos ou mais numa escala técnica de degustação são classificados como especiais. Essa nota passou a ser o critério que separa commodity de qualidade.

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Nos Estados Unidos, o movimento foi liderado pelo que ficou conhecido como o “Big Three”: Stumptown Coffee Roasters, fundada em Portland em 1999 por Duane Sorenson; Intelligentsia Coffee, de Chicago; e Counter Culture Coffee, da Carolina do Norte. Mais tarde, Blue Bottle Coffee, fundada na Califórnia em 2002, viria completar esse quadro. Essas empresas não eram só boas na torra, elas criaram um modelo de negócio baseado em transparência, relações diretas com produtores e educação do consumidor. O barista deixou de ser um atendente e virou um profissional técnico.

Na Europa, o movimento ganhou força especialmente em Londres e nos países nórdicos. A Noruega, país que, curiosamente, tem um dos maiores consumos de café per capita do mundo produziu torradores que se tornaram referência global em torra clara e precisão sensorial. Em Londres, cafeterias como a Monmouth Coffee e, mais tarde, a Square Mile Coffee Roasters, ajudaram a transformar a cidade num dos epicentros da cultura de café especial mundial.

A Austrália, por sua vez, com sua cena de café já madura, foi solo fértil para a terceira onda. Melbourne e Sydney rapidamente adotaram o movimento e o exportaram. Cafeterias australianas como a Proud Mary abriram unidades em Portland e Nova York, levando o estilo australiano de café para o coração do movimento americano. O flat white se espalhou pelo mundo.

O conceito central da terceira onda é simples: o sabor começa na fazenda. A torra e o preparo são ferramentas para revelar o potencial que o grão já carrega não para mascará-lo. Por isso a torra mais clara ganhou protagonismo: ela preserva as características originais do grão, as notas de fruta, a acidez delicada, a complexidade de um terroir específico.

No Brasil, o movimento chegou com força a partir de 2010 mas com uma vantagem que nenhum outro país tinha: o Brasil é o maior produtor de café do mundo. Enquanto as torrefações americanas e europeias precisavam importar grãos, os brasileiros podiam ir buscar o café a duas horas de carro.

A pioneira foi a Lucca Cafés Especiais, aberta em 2002 em Curitiba pelo casal Georgia e Luiz Franco de Souza — considerada a primeira cafeteria dedicada exclusivamente a cafés especiais no país. Georgia, que mais tarde se tornaria Mestre de Torra e uma das vozes mais influentes do setor, ajudou a colocar o Brasil no mapa do café especial de um ponto de vista que vai além da produção: o da qualidade na xícara. A Lucca não era só uma cafeteria. Era um manifesto.

Em São Paulo, o Coffee Lab, criado pela barista Isabela Raposeiras, a primeira mulher a vencer o Campeonato Brasileiro de Baristas, se tornou um laboratório de referência. A Isabela é uma das figuras mais importantes na construção de uma linguagem técnica e acessível sobre café especial no Brasil.

Aqui em Florianópolis, já tínhamos o Uma Origem, Café Cultura, Black Horse, e nós que abrimos a empresa em 2015, sendo a pioneiro na região central de Floripa. Trouxemos na época uma estética nova meio urbana & industrial, móveis de madeira naval, vergalhões de ferro, paredes escuras, mesa coletiva, iluminação mais baixa, arte de rua. Saímos em diversas revistas de arquitetura, tv e sites especializados como PDG e Revista Espresso.

A partir daí, o movimento cresceu rápido. Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e, gradualmente, outras cidades brasileiras passaram a ver surgir torrefações artesanais e cafeterias comprometidas com a qualidade. O modelo era claro: conhecer o produtor, selecionar o lote, torrar com precisão, servir com cuidado.

Nossa antiga loja funcionou de 2016-2023. Hoje trabalhamos apenas com a torrefação.

E agora?

Onde estamos e para onde vamos? O debate sobre a quarta onda

Existe um debate em curso entre os profissionais do setor sobre se já estamos vivendo uma quarta onda ou se a terceira ainda está se espalhando pelo mundo. A resposta honesta é: depende de onde você está.

Nas regiões onde a terceira onda já é madura, surgem elementos que apontam para algo novo: fermentações controladas e exóticas que transformam o perfil sensorial do grão, rastreabilidade digital completa da fazenda até a xícara, tecnologia de torra guiada por ciência de dados, e uma proximidade cada vez maior entre torrador e produtor, onde o torrador não compra o lote depois da colheita, mas acompanha o processo desde o plantio. Hoje o consumidor final tem acesso a diversos equipamentos de ponta como máquinas de espresso, moinhos, filtros de água, equipamentos ultra avançados para torras em menor volume. E a própria internet que contribui com estudos, reviews e comunidades de coffeelovers.

No Brasil, as ondas convivem lado a lado. Você pode tomar um café instantâneo de manhã, um espresso da Starbucks no aeroporto e, à tarde, um pourover de um microlote de Geisha de Minas numa torrefação artesanal. As três ondas estão ali, simultâneas, servindo públicos diferentes.

O que importa entender é que cada onda não invalidou a anterior. A Nescafé ainda vende bilhões. A Starbucks ainda abre unidades todo mês. E o mercado de café especial continua crescendo, especialmente no Brasil, que descobriu que pode valorizar internamente o produto que sempre exportou.

“O café especial não é tendência. É uma correção de rota. Uma volta ao que o grão sempre foi, antes de virar commodity.”

Se você chegou até aqui, provavelmente já percebeu que a xícara que você toma pela manhã carrega muito mais história do que parece. Cada grão passou por mãos de um produtor, por um torrador, por um barista e cada uma dessas pessoas tomou decisões que afetam diretamente o que você sente na boca.

Isso é o que torna o café especial tão interessante: ele transforma um hábito automático num ato de atenção. E uma vez que você começa a prestar atenção, é difícil voltar. Sempre dizemos aqui: quem experimenta café especial entra num caminho sem volta.

A Arbor está aqui desde 2015 dentro desse espírito. Torramos toda semana, buscamos produtores que cuidam do grão com seriedade, e acreditamos que uma boa xícara começa muito antes da cafeteira. Se você está começando essa jornada, seja bem-vindo. Tem muito assunto pela frente.

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